Promessas Por Cumprir – Dani

Hoje inicio uma reflexão que irei desenvolver ao longo das próxima semanas. Chamei-lhe “Promessas por cumprir” mas o que esta abordagem realmente aborda são os vários jogadores lusos que passaram literalmente… ao lado de uma grande carreira. Quem melhor para inaugurar esta estreia que a eterna promessa do futebol português dos anos 90. Promessa adiada e nunca concretizada – Dani.

Há dias estava a ouvir uma entrevista de Rui Caçador que fazia então uma retrospectiva do que foi a formação em Portugal quando orientou a selecção de sub-15, em 1992, e acompanhou percurso ascendente de vários jogadores pelas diversas selecções jovens.Numa entrelinha deixou a mensagem que considero ser o mote de sucesso para cada jovem “estrela” em ascensão – “Cada vez mais os grandes clubes têm de ser mais exigentes com a formação e assegurar um apoio psicopedagógico a jogadores com talento, de forma a que não sejam precocemente lançados na alta competição. Caso contrário, os Figos e os Maradonas tendem a desaparecer ao mesmo tempo que proliferam os jogadores padronizados.” Esta verdadeira deixa teve o condão de me acordar para uma busca aos exemplos do que um jovem à procura do sucesso não deve seguir. Dei por mim a mergulhar num autêntico oceano de nomes lusos onde de imediato me surgiu um de forma explosiva: Dani.

Quando se estreou na equipa principal do Sporting, na época de 1994/1995, com apenas 17 anos, sob orientação de Carlos Queiroz, todos os especialistas lhe auguravam um futuro brilhante. Dani era proveniente de uma família bem estruturada, da classe média alta (o pai é professor de Filosofia e a mãe médica) e foi sempre habituado a grandes andanças desde muito jovem, o que o levou a não procurar o futebol como o futebolista comum , numa perspectiva de enriquecer e ficar famoso. O futebol “começou” para Dani com o título de campeão da Europa de sub-18 conquistado em Espanha – 1994, tinha sido a etapa mais recente do seu percurso ascendente nas camadas jovens do Sporting e nas selecções onde brilhou em todos os escalões. Mas a promoção à equipa principal fez estalar sobre ele os flashes dos media, não só pelos seus dotes futebolísticos, mas também pela sua imagem pouco comum: ele era bonito, tinha estilo, falava bem e vestia roupa de marca. O contrário do típico futebolista português que conciliava três ingredientes que juntos se transformaram num “cocktail” explosivo.

Futebolisticamente, o talento de Dani era evidente. Elegante, habilidoso, veloz e com bom remate, eram características que o tornaram num dos jovens mais talentosos a nível mundial. O seu brilho ainda foi maior, quando foi dono de exibições memoráveis no Mundial Sub-20, no Qatar, quando a FIFA o considerou como um dos três melhores jogadores de todos os campeonatos do Mundo daquela categoria. Tudo parecia correr sobre rodas para Portugal ter mais um “menino dourado” no futebol internacional. No Sporting, foi abraçado pelo então chamado grupo dos “três mosqueteiros” que era completado por Sá Pinto e Dominguez. Logo ai, Dani viu uma forma de explorar o seu mediatismo com o apoio de colegas leoninos, até que no início de 1996 acabou emprestado ao emblema londrino do West Ham. Aqui começou o que chamo de inicio do descalabro de uma carreira. Os responsáveis de Alvalade recorreram a esta “solução” convencidos que a experiência em Inglaterra lhe seria benéfica no sentido de o consciencializar das responsabilidades e exigências do profissionalismo.

Claramente em vão, dadas a vicissitudes de uma cidade como Londres, com mil e uma tentações,num clube com tradição mas que não tinha a estrutura de um Manchester United actual, para absorver e proteger um jogador com uma imagem tão forte. Logo mal chegou, Dani explodiu em mediatismo e deu a volta à cabeça das mulheres, que o adoram e perseguem. Fez notícia regular dos tablóides ingleses pela suas deambulações pela noite e consolidou fama de ‘playboy’, ao mesmo tempo que se entusiasmou com as solicitações do mundo da moda para desfilar como modelo, o que passou a fazer com alguma regularidade. Os atrasos frequentes aos treinos fizeram explodir de raiva o então treinador do West Ham, Harry Redknapp que o suspendeu do clube por motivos de falta de profissionalismo.

Promessas Por Cumprir   DaniEsta saída abrupta da experiência londrina não afastou Dani de ser convocado para os Jogos Olímpicos de 1996, onde brilhou e ajudou Portugal a alcançar a medalha de bronze. Tudo isto levou a nova pressão externa de clubes e foi a vez do Ajax que sustentando a sua tradição como clube com fortíssimas bases na formação, levou a melhor sobre outros e juntou a jovem estrela à equipa liderada então por Van Gaal.Nas duas épocas iniciais, sob a batuta rígida e disciplinadora do holandês, Dani foi evoluindo na equipa passando de suplente a titular com as devidas cautelas. A sua imagem, voltaria a ser bem explorada com a loucura entre os inúmeros clubes de fãs criados em seu redor e o encaixe de milhões em produtos de merchandising. Fez belíssimos jogos ao serviço do clube de Amesterdão mas a saída de Van Gaal e a entrada de Martin Olsen, provocou uma alteração na metodologia e disciplina no balneário, o que viria a “libertar” Dani para novos devaneios. Quem não se lembra de já na 2ª equipa do Ajax, Dani ter sido literalmente “esquecido” a dormir no autocarro da equipa, quando este já retornava vazio para a capital holandesa após ter deixado a equipa no aeroporto? Ou das centenas de entrevistas, marcações ou encontros importantes que não compareceu por estar a dormir após noitadas bem passadas?

Após 4 anos na Holanda, Dani voltaria a ser “recambiado”, mas o mergulho no abismo já estava dado tal era a sua fama de noctivago e de “playboy”. O mote estava dado e pela mão do seu empresário José Veiga, Dani voltaria a Lisboa mas desta feita o destino era o Benfica de José Mourinho. Até à ruptura do “special one” com a recém-eleita direcção de Vilarinho, Dani conseguiu mostrar uma postura quase divina dentro e fora de campo, tal era a disciplina de Mourinho no balneário da Luz. Com a sua saída, Dani voltaria a perder, como havia acontecido no Ajax com Van Gaal, a âncora ou o mentor disciplinador que o colocaria no “bom caminho”. Saiu em litígio com os encarnados e voltaria a ser “salvo” pelo então director desportivo do Atlético Madrid, Paulo Futre que deu-lhe a mão e levou-o para o Atlético de Madrid em Janeiro de 2000/2001, onde começou a jogar na II Liga. Parecia ser a derradeira oportunidade de salvar uma carreira em risco de derrocada. Na época seguinte, foi considerado o melhor jogador do Atlético e revelou-se preponderante na subida à I Liga, o que conduziu À renovação do contrato até 2005. Novamente em vão, os “problemas” em Madrid voltariam a agudizar-se. Voltaria a cair no círculo vicioso das noitadas e dos inevitáveis atrasos aos treinos e foram poucos os jogos em que foi utilizado na I Liga. Em Agosto de 2002 chegou a acordo para a rescisão com o Atlético, recebeu uma indemnização e tentou ainda continuar a jogar quando em Setembro foi à experiência para o Celtic, de Glasgow, mas chumbaria nos testes. Uma facada no seu orgulho que precipitou a decisão de abandonar. Entretanto, o abismo de um determinado tipo de dependências, levaram-no a uma “visita de recuperação de hábitos do passado” em Cuba, onde esteve com os seus pais para ser observado.

Concluindo, o destino estava escrito. Como tantos outros colegas de profissão, Dani saiu prematuramente de Portugal e ficou fora do controlo familiar, sem o devido acompanhamento e protecção da fama. Em clubes onde o rigor e a disciplina são os valores constantes, e com um treinador estilo José Mourinho, teria tido grandes possibilidades de encontrar a estabilidade e um espaço de afirmação para o seu extraordinário talento. Mesmo assim, teria sido difícil, pois o que saltava à vista era que embora dotado de um enorme talento, Dani não amava o futebol, apenas era mais um dos meios para se expor ao estrelato. Actualmente, Dani é empresário, cronista cor-de-rosa e vive um pouco do proveito da sua (ainda) boa aparência, tendo “arrumado as botas” a uns incríveis 27 anos de idade.



Alguns dos fantásticos lances de Dani no Ajax

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