Observatório: Galgo do Futebol Moderno

Corria o defeso da temporada 2003/04. O FC Porto preparava uma temporada que se iria revelar memorável, com a consagração de melhor clube da Europa. Com José Mourinho ao leme dos azuis-e-brancos, e depois de uma temporada que havia culminado com a conquista da dobradinha a nível nacional e da Taça UEFA a nível europeu, os olhos estavam colocados na administração portista, e na forma como iria gerir o plantel a apresentar à sua equipa técnica.

“Ele é alto e eu gosto de jogadores altos, é rápido e eu gosto de jogadores rápidos, ganhou pouca coisa e eu gosto de jogadores que querem ganhar muita coisa!”. Foram estas as primeiras palavras de Mourinho, bem ao seu estilo, como reacção à primeira contratação portista para a temporada de 2003/04. A 17 de Junho de 2003, José Bosingwa da Silva era apresentado de dragão ao peito, depois de uma operação relâmpago entre responsáveis do Porto e do Boavista FC. Apesar de não constar da lista prioritária do treinador português, Bosingwa havia sido a grande revelação do Boavista na época transacta, e era considerado um polivalente por natureza. O negócio envolvia ainda os atletas Ricardo Silva e Ricardo Sousa, assim como a realização de uma partida amigável entre as duas equipas. Aqui se iniciava mais uma história de sucesso no futebol português.

Nascido em 1982, em Kinshasa, na República Democrática do Congo, cedo a sua família o trouxe para Portugal. Bosingwa não tem sequer memórias da terra africana de onde é natural, e foi em Seia, distrito da Guarda, que deu os primeiros pontapés numa bola. Durante alguns anos desenvolveu o seu futebol num clube local, o Fornos de Algodres, onde chegou a treinar a equipa feminina de futebol. Como juvenil, tornou-se em mais uma descoberta da famosa e antiga equipa de prospecção boavisteira. Rumando ao Estádio do Bessa, iniciou uma nova etapa na sua carreira. Com maior exigência, também com maior tranquilidade e qualidade para desenvolver as suas qualidades, José Bosingwa dividia-se entre o centro de treinos e a escola, situada a dois passos do Bessa. Recordo-me, como se fosse hoje, de falar com um colega de carteira do jovem jogador boavisteiro, que me dizia empolgado: “Vai ser um grande jogador, tenho a certeza. Quando jogamos ele ocupa todas as posições do campo, e consegue ser o melhor em qualquer uma delas.. detesta perder, e está constantemente a dar indicações aos colegas!”. Conversas de miúdos, é certo. Coincidência ou não, José haveria de se revelar como um jogador dinâmico, polivalente, e cuja evolução foi notória dia após dia, jogo após jogo.

Observatório: Galgo do Futebol ModernoA nível de selecções, Bosingwa foi também presença constante. Referenciado como “José da Silva”, recordo-me perfeitamente de o ver actuar nas selecções de Sub-20 e Sub-21. A primeira vez que o vi actuar, na sua posição de origem – médio centro – fiquei empolgadíssimo. Bosingwa parecia estar 5 anos à frente dos outros colegas, tal era a maturidade que aplicava em qualquer lance. De cabeça levantada, saía a jogar com a maior das facilidades, e tinha uma leitura de jogo invulgarmente boa para a idade. Rapidamente me quis informar a quem pertencia tão belo jogador – tratava-se de um miúdo das escolas axadrezadas. Com um ano de rodagem em Freamunde (2000/01), e dois na equipa sénior do Boavista, Bosingwa perdeu quase definitivamente o estatuto de trinco ou médio centro. Jaime Pacheco “puxou” por ele como nenhum outro até à altura, colocando-o a defesa lateral, médio interior direito, e até a extremo direito, onde as dificuldades ao nível de cruzamento eram evidentes. Em todo o caso, este jogador conseguia surpreender qualquer um, tal era a facilidade com que se adaptava a posições totalmente novas. Tecnicamente muito forte, e com uma estrutura física de um praticante de atletismo, Bosingwa tinha tudo para ser um dos melhores.
Chegado ao Dragão, Mourinho chegou a testá-lo em 5 posições na pré-temporada então realizada. Segundo o genial treinador portista, Bosingwa conseguia cumprir qb em todas elas. Para além da sua posição de origem, e das outras três apostas distintas de Pacheco, Mourinho conseguiu ainda vislumbrar Bosingwa como um rápido e moderno defesa-central. As capacidades aéreas são hoje um trunfo de José Bosingwa, mas a posição de central foi a única que acabou por nunca ser desempenhada oficialmente.

O que é facto é que nos dias de hoje vemos um José Bosingwa que acumula como lateral-direito um pouco de tudo aquilo que absorveu nas posições que ocupou durante a sua carreira como futebolista. Defensivamente cada vez mais forte e consistente, não são poucas as vezes que o vemos a ganhar lances de cabeça dentro da área. Diagonaliza facilmente para a sua posição de origem, percorrendo o centro do terreno como peixe na água, mas consegue igualmente ser um quebra cabeças quando está encostado à linha lateral. Os cruzamentos, uma das suas antigas pechas, foi também algo muito trabalhado pelo luso-africano, e é hoje mais uma das suas inúmeras qualidades. Como titularíssimo na turma de Jesualdo Ferreira, e actualmente com 25 anos, atrevo-me a dizer que José Bosingwa absorve inteiramente a mística portista, revelando-se em campo como destaque de uma equipa moderna e adulta que Jesualdo conseguiu construir.
Com um pulmão que parece não terminar, Bosingwa estará certamente a viver uma época de sonho. Se no Porto as coisas correm bem, a titularidade no Euro 2008 é também uma realidade bem viva. E Bosingwa merece-o, pois é um atleta com competência à antiga, a jogar num futebol moderno.

Sugestões...

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>