Observatório: Os Tubarões

Este defeso veio demonstrar, até ao amante de futebol menos atento, o peso da globalização no futebol mundial, e as discrepâncias que isso tem trazido ao fenómeno desportivo.

É uma verdade que, como ao longo do anos pudemos conferir, continuamos a ver equipas a perder rumo, ao passo que outras crescem de forma continuada. Em Portugal, temos casos claros de sucesso, como o Vitória de Guimarães, o Leixões ou o Braga. Em Inglaterra vimos o Reading efectuar uma temporada de sonho num campeonato extremamente competitivo e desgastante. Em Espanha temos o soberbo caso do Sevilla, ao passo que em Itália o Palermo foi a sensação. Por oposição, equipas por essa Europa desiludiram, umas atingindo mesmo climas de crise efectiva: PSG, Nantes, que há nao muito tempo viamos defrontar o FC Porto na Liga dos Campeões, esta temporada acabou por terminar o seu campeonato na última posição. Em Espanha, Celta de Vigo ou Real Sociedad são outros exemplos claros dessa volatilidade de que falo.É o futebol, e é essa imprevisibilidade que nos mantém aficcionados a este desporto. Quanto maior o patamar atingido, maior poderá ser a queda; e vice-versa, naturalmente.
Com esta introdução pretendo frisar como muitos dos princípios básicos do futebol se têm mantido intactos, alheios ao capitalismo que se apodera do futebol internacionalmente. Apesar disso, este capitalismo acaba por ter consequências devastadoras para alguns clubes, não só para aqueles geridos de forma nigligenciadora, mas também, em muitos dos casos, para aqueles que vivem o futebol como um desporto puro, transparente, e não como aquilo que o é actualmente, uma indústria.

Actualmente, temos vindo a confirmar a presença deste fenómeno que obviamente não nos é alheio: os “poderosos” do futebol internacional. Equipas que movem multidões, que detêem franjas de massa adepta que não é sequer comparável à maioria dos clubes. Equipas que têm vindo a expandir a sua actividade para um claro negócio, como em qualquer outra indústria de fins lucrativos, para a qual os novos meios de comunicação globais como a internet, e tudo aquilo que a isso está associado, têm vindo a contribuir de forma exaustiva. Falo, por exemplo, do Real Madrid, Barcelona ou Manchester United.
O futebol nacional, fruto da sua enorme evolução, da sua boa formação e também, diga-se, de um FC Porto que em muito contribuiu para a expansão dos futebol português fora de portas, tem constituído um dos maiores alvos desses também designados como “Tubarões”. Nani, Anderson, Pepe, Simão (ainda que num contexto distinto): em apenas 1 defeso, 4 jogadores, 106,5 milhões de euros, foram os números “irreais” dos conteúdos transaccionais em território nacional. Não temos defesa para garras tão poderosas; temos, no entanto, poder negocial, parâmetro que os clubes portugueses podem e devem potenciar de forma a garantir a estabilidade orçamental de que tanto necessitam. Não temos como obrigatoriedade resistir a este assédio, mas sim gerir o futebol de uma forma realista, apostando na formação, em gabinetes de prospecção, contactos nacionais e internacionais de qualidade, etc. Acima de tudo, gerir o futebol como qualquer outra área concorrencial de mercado: com qualificação, experiência, rigor, e transparência.

É, actualmente, o nosso futebol.

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